sábado, 29 de março de 2008

‘Adiós’ Fidel.


Herói de uma nação, vilão mundial, ou simplesmente um severo ditador socialista? Seria difícil, em uma pesquisa de opinião popular, definir precisamente o que mais se encaixa a Fidel Castro, correto é dizer que durante sua vida política conseguiu alguns seguidores e muitos inimigos, mas também conquistou o que poucos conseguem: o respeito de quase todos. No último dia 19, presenciamos sua renuncia após 49 anos de “reinado”, colocando um ponto final a um dos maiores períodos de ditadura da história contemporânea. Uma era se desfaz... Será?
Seguidor da doutrina marxista, Fidel liderou a Revolução Cubana (1958-1959) ao lado do argentino Ernesto “Che” Guevara, tornando-se conhecido mundialmente após o golpe de estado que derrubou o ditador Fulgêncio Batista e que instaurou o “comunismo castrista” em Cuba.
O sistema de governo de Fidel teve duas faces distintas, por um lado investiu em infra-estrutura nas áreas da saúde, educação e esportes e também tornou-se por algum tempo o maior produtor de açúcar do mundo, por outro fez com que a população tivesse uma sobrevida, com salários miseráveis e nenhum incentivo às atividades econômicas internas, além do controle de todos os meios de comunicação da Ilha, com formas de repreensão muito fortes.
Com o fortalecimento do socialismo na União Soviética, Cuba acabou se transformando em uma ameaça para o capitalismo e, principalmente, para os Estados Unidos, por ser o único país da América a adotar o sistema socialista. Como conseqüência, os americanos embargaram a “ilha de Fidel” rompendo suas relações. Porém a desintegração da URSS e a queda do Muro de Berlin, fizeram com que o potencial cubano e suas fontes de apoio externas enfraquecessem consideravelmente, mas Fidel manteve sua posição mundial, fazendo com que o país “parasse no tempo”, a produção canavieira caiu consideravelmente, e seus setores mais desenvolvidos (educação e saúde) ficaram defasados.
A renuncia do “comandante da ilha”, se deve única e exclusivamente à sua condição de saúde já bem agravada. Para muitos, o fato marca o começo de uma nova era, porém é bem provável que a realidade não seja assim tão revolucionária, pois seu irmão e sucessor, Raul Castro, é, acima de tudo, seguidor e combatente da Revolução Cubana e já declarou que as decisões do país passarão por conselhos e recomendações de Fidel. A realidade é clara, os “passos” da ilha continuarão influenciados pela voz de Fidel, agora de uma forma indireta.
O saldo após os 49 anos do governo Fidel Castro não foi favorável à Cuba, pois setores potenciais sócio-econômicos estão ultrapassados e enfraquecidos e o país vive em plena miséria. É visível a necessidade da abertura econômica e da reestruturação de todos os setores, entretanto é bem provável que mudanças de fato aconteçam apenas após a morte do líder cubano, da mesma forma que ocorreu com a China após a renuncia de Mão Tse-tung e com a União Soviética pós Leonid Brejnev.
O futuro de Cuba é incerto, as mudanças são necessidades evidentes e fundamentais e as atitudes do novo chefe de Estado são incógnitas. Todos esses ingredientes podem resultar em uma caminhada contínua à beira da miséria com uma população sofrendo calada. Outra possibilidade, menos provável, é a abertura econômica e a melhora nas condições do país. Mas também há possibilidade da indignação popular junto ao novo governo, podendo gerar consequentemente uma guerra civil. Talvez o mais correto seria dizer que Cuba pode, em pouco tempo, se tornar uma bomba-relógio prestes a explodir a qualquer momento.E quanto à renuncia de Fidel, o melhor a dizer seria: “Vá com Deus, e não volte ao poder... o mundo agradece.”



Texto publicado no Jornal Acontece Ava - Coluna Opinião Formada - da cidade de Avanhandava no dia 04/03/2008

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